quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Fumaça

No meio da névoa ela estava quieta,
sozinha, pronta para o espetáculo.

Ela atirou as brasas no vulcão dos meus sentimentos.
Sublimou.
Subiu aos céus e caiu em tempestades.

Minhas formas foram derretidas pela chuva ácida,
decantou minha alma.
Meu amor todo que não tens, escorreu para o encharco.

Formou-se o alagado,
e hoje é onde pela noite as vitórias desabrocham.

Rafael Cunha

Luxo

Seja os espelhos e latas de tinta.
Não são conversas e histórias.
Também não são risadas e nem choro de alegria.

Não é a volta na esquina da próxima rua.
É talvez o semáforo no cruzamento sem o topo dos edifícios.
Talvez seja cotovelos e passeios turísticos.

Uma amante de bons dentes e nenhuma fala.
Não os toques dos lábios sinceros.

Chove.

Oxu. Lembra-te que temos.

Rafael Cunha

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Menina Nêga

Pequena nêga de olhos claros,
as curvas dos seus braços encantam os bem-te-vis.

As ondas do mar só existem para vê-la dançar
sob o luar que te banha, dourada.

Sua voz ofusca o grito das arapongas,
seja qual for a floresta,
seja qual for o mar,
és a mais bela Janaína de todos eles.

Você é luz, és desejo.
Como o Sol é para a Lua.

A fonte de mel para muitos,
que apenas passam como espectadores.

Rafael Cunha

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Clara

Se eu disser que vagaria todos os verões para vê-la.
Se eu disser que apagaria todos os relâmpagos para carinhar o seu chôro.
Você acreditaria em mim?

Eu faria tudo sem que soubesse nadar.
Faria tudo de olhos vendados, como um soldado.
Sem medo.

Percorreria os pampas, os encharcos, a secura.
E quando eu chegasse no mais belo mar lhe daria o nascer do Sol.
Repousaria adiante, o Sol em suas costas.
Lhe banharia ao mar.
Daria a você, eu.
Para vê-la jogar-me ao vento,
na primeira corrente de ar quente.

Rafael Cunha

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Sono

Chapéus e travesseiros.
Mais nada é preciso para um sonho.

O travesseiro acomoda:
seu sorriso fechado,
seus olhos claros,
sua boca rosa suave,
seus cabelos longos e seu nariz pontudo.

O chapéu guarda:
os seus sonhos ainda não realizados,
descarrega na noite as vontades não desejadas.
Mostra-lhe o caminho para o sorriso na próxima manhã de Sol.

Como um espreguiçar,
eles guardam seus bocejos para mim.
Que sempre a esperei.

Rafael Cunha

Cerca

Cada um di un lado.
Do lado di cá, nóis, nu di lá ela.
Nu brejo as mina si confunde,
quanto mais si cavuca mais água surgi.
Se não cutuca continua brejo.

A cerca divide o meu brejo, e o dela também.

Se eu drená o brejo pra minhas vaca ela não vai gosta nada nada.
E si ela drená eu também não.

Hum.

Vô vende minhas vaca e prantá arrois.


Rafael Cunha